Quem é Ana Caroline de Lima?
Ana Caroline de Lima é fotógrafa, jornalista, antropóloga e Exploradora da National Geographic, cujo trabalho aborda questões socioambientais, crise climática, bioeconomia, resiliência cultural e conservação ambiental.
CHACCU
O TESOURO DOURADO DOS INCAS
PERU
A 4.191 metros acima do nível do mar, nos vales andinos ao norte do Lago Titicaca, a comunidade quéchua se reúne todos os anos para o Chaccu, um antigo ritual inca em que tradição e sobrevivência se encontram. Os moradores formam uma vasta corrente humana, conduzindo lentamente as vicunhas selvagens até um curral. Ali, os animais são contados, tosquiados cuidadosamente e depois soltos.
Eles fazem da mesma maneira que o Império Inca fazia muitos séculos atrás, e essa prática foi retomada para salvar as vicunhas da extinção — e funcionou. Em meados do século XX, as vicunhas estavam à beira da extinção. A demanda por casacos luxuosos na Europa e nos Estados Unidos havia reduzido sua população a menos de 10 mil animais e, na década de 1960, estimava-se que a população selvagem do Peru não passasse de 7 mil.
O Chaccu, que um dia foi uma cerimônia imperial, tornou-se uma linha de sobrevivência. Ao recuperar o método inca de tosquiar os animais sem matá-los, as comunidades transformaram a conservação em um dever cultural. Em 2008, o status da vicunha foi rebaixado para “pouco preocupante” e, em 2023, sua população andina chegou a uma estimativa de 400 mil animais.
Para Ernestina Quispe, o Chaccu faz parte da vida cotidiana. Ela percorre a puna com sua filha adotiva, cuidando de alpacas e vicunhas, carregando um tear artesanal para tecer nos campos abertos. Cada tecido guarda a memória de seu povo, conectando passado e futuro, um fio de cada vez.
Antes de começar a tosquia, os participantes fazem orações pela saúde dos animais e pedem permissão para retirar sua lã. “No passado, sacrificávamos animais”, diz Ernestina. “Agora usamos animais de pelúcia em seu lugar.” Ela sorri: “As vicunhas podem nos ouvir. Quando pedimos permissão a Deus, Deus diz a elas que não serão machucadas.”
A fibra da vicunha é a fibra natural mais valiosa do mundo, e sua venda gera uma renda vital para a comunidade. Os lucros são compartilhados, ajudando as famílias a cobrir necessidades básicas, financiar escolas locais e apoiar a formação de jovens artesãos nas técnicas tradicionais de tecelagem. Mas as fibras não permanecem ali. O pelo é tão delicado que menos de um punhado de empresas no mundo possui a tecnologia necessária para processá-lo. Uma das empresas mais renomadas vende um terno de vicunha por 25 mil dólares, e isso faz com que os moradores se perguntem se o valor que recebem em troca é justo.
Depois do Chaccu, abraçada pelo irmão, Ernestina se pergunta: “Qual será o futuro de nossa comunidade? Eu não sei. Mas as vicunhas não vão desaparecer. Minha filha sabe o que elas são. A filha dela também saberá. A neta dela trabalhará com vicunhas, talvez ganhando mais. Talvez pessoas muito distantes saibam de onde vem aquele belo casaco. Ele vem das vicunhas. Ele vem de nós. Nós somos um só.”




















